Opinião, por Dinis Amaral: Inolvidável!

2026/05/07

Dinis Amaral

Sou nado e criado em Ovar há 55 anos. A minha bandeira é, por isso, e desde que me lembro, a da Ovarense. Nunca fui atleta do meu clube do coração, contudo, por razões pessoais, familiares e profissionais a minha ligação ao clube é e será eterna.
Lembro-me, ainda pequeno, pelos finais da década de 1970, de entrar de mão dada, aos domingos à tarde, na alameda do Parque Marques da Silva e, por entre o ruído de um ou outro rádio mal sintonizado, ver os cachecóis pretos e brancos agitarem-se à passagem daqueles homens que, pouco depois estavam dentro daquele campo pelado a lutar por cada bola, como se fosse a última. À sombra ou ao abrigo proporcionados pelos painéis onde de funcionava o “marcador” do topo norte, onde as letras em tamanho garrafal “FRAMADA” nos entravam olhos dentro, vivi momentos inolvidáveis, entre aqueles homens mais velhos que, a cada domingo, “peregrinavam” a região para acompanhar a sua paixão. A paixão pelo clube que o meu padrinho, Alberto Cardoso, amou e me ensinou a amar, até partir.
Cresci e vi o futebol da Ovarense ganhar expressão, subir de divisões, as instalações do clube serem modernizadas, o campo pelado dar lugar a um magnífico relvado, o futebol perder importância e quase morrer para se reerguer de novo e continuar a escrever história. Vi a secção de ciclismo desaparecer, aparecer de novo para uma Volta a Portugal inesquecível e que acompanhei por dentro, para voltar a cair. Vi a secção de basquetebol ganhar os primeiros títulos, para depois ter de se autonomizar e escrever as mais bonitas páginas da história do clube. Vi outras modalidades, como o atletismo, que apesar dos títulos conquistados não sobreviveram…
Felizmente, a minha vida profissional permitiu-me acompanhar, ao longo dos últimos 25 anos, o meu clube do coração, fazendo uma das coisas que mais gosto…narração desportiva. Vivi, por isso, os momentos mais marcantes da história da ADO Futebol e da ADO Basquetebol, no último quarto de século. E tantas histórias guardo para contar.
No basquetebol, por exemplo, as participações nas competições europeias e as conquistas internas, que foram tantas, com destaque para o tricampeonato. Nesta modalidade, somos o maior exemplo do país, sendo detentores da participação ininterrupta com a maior longevidade no mais alto patamar da modalidade em Portugal.
No futebol, assisti e escrevi sobre a queda do clube. Narrei, épocas a fio, as participações da Ovarense nos mais baixos patamares competitivos e narrei as vitórias que me aqueceram sempre a alma e que mantiveram o clube vivo.
Em 2007 e para que se não perca a lembrança, coloquei no papel, sob o título “Alma vareira”, o que sei, o que vi e o que pesquisei sobre o basquetebol da Ovarense.
Nos últimos anos, embora mantenha esta atividade de escrever sobre a Ovarense, deixei o ‘camarote de imprensa’ e regressei ao topo norte, para “encarnar” o papel de adepto que nunca deixei de ser. Não voltei na procura dos painéis que outrora me ofereceram sombra, abrigo e paixão. Voltei para tentar reviver momentos e a alegria do passado e, na verdade, isso tem acontecido.
Entre jogos no Estádio Marques da Silva e as aventuras das deslocações, para a acompanhar a equipa nos jogos fora de portas, muita coisa foi acontecendo na última década. E foi assim que, depois de um interregno de largos anos, voltei a privar com o Canário. O seu regresso a Ovar colocou-o no meu caminho e ao longo dos últimos anos fomos companhia. Nunca partilhei com ninguém, tão puro e vareiro, tanto amor pela nossa “associação”, como ele gostava de dizer… até ao dia em que nos deixou.
Quis o destino que, precisamente no momento em que a Ovarense, com a subida de divisão ao campeonato nacional, voltou a escrever uma página bonita da sua história, nenhum destes dois enormes ovarenses estivesse comigo para festejar.
Nos golos da Ovarense em Lobão lembrei-me muito deles… e festejei muito, com outras duas grandes ovarenses, a Nini e a Mariana, que aprenderam a amar o clube como o Alberto Cardoso e o Canário amaram… e como eu amo.
Enfim, tenho vivido de perto o fado de um clube cuja história há de continuar a escrever-se e que eu hei de continuar a festejar.
Ah, sou o sócio n.º 67 da ADO Futebol, o sócio n.º 321 da ADO Basquetebol, e faço parte da mais antiga Troupe de Reis de Ovar - a Troupe da ADO!
Foi inolvidável!

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